Em 2026 o monarquista raiz perdeu o prazer de votar
Ele entra na fila, pega o título, encara a urna, e sente que nada ali lhe pertence. Não é apatia. É lucidez. Votar na República virou um ritual de escolher gerente para uma casa sem dono, sem história e sem norte. O monarquista não quer só trocar o síndico, ele quer a restauração da própria casa.
O monarquista raiz nunca votou por ambição de poder, votou por dever, por tentar diminuir o estrago. Ele votava no menos ruim, no que falava em ordem, em família, em Brasil grande. Em 2026, olhando o cardápio, só vê as mesmas facções republicanas brigando pelo mesmo espólio, com as mesmas promessas ocas, as mesmas siglas alugadas, o mesmo teatro de cada quatro anos. Nenhum projeto de Estado, só projeto de mandato.
Diante da urna, ele percebe o abismo. O que está em jogo não é esquerda contra direita, é a continuidade de um sistema que nasceu de um golpe e nunca encontrou legitimidade. Ele, que sonha com um Chefe de Estado acima dos partidos, imparcial, símbolo vivo da história, é obrigado a escolher um Chefe de Governo partidário que amanhã será o inimigo de metade da nação. O voto deixou de ser um ato de esperança e virou um atestado de resignação.
Por isso o prazer se foi. Não por falta de amor ao Brasil, mas por amor demais. O monarquista de 2026 não deixou de ser brasileiro, ele só cansou de fingir que essa República o representa. Ele ainda vai votar, talvez, mas sem brilho nos olhos. Porque quem conheceu a ideia de Império, de continuidade, de honra e de destino, não consegue mais se contentar com o barulho de uma eleição sem alma.
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