O que nós monarquistas somos?
Artigo por: Patrick Kouark
Dom Pedro II
Passados mais de um século do golpe da república, o movimento monarquista brasileiro precisa urgentemente olhar para si mesmo com honestidade e coragem. Se desejamos ser levados a sério como alternativa política e cultural, precisamos reconhecer nossos erros.
Durante décadas, o movimento pecou por uma visão açucarada do Império. A imagem de um Portugal Europeu nos trópicos, com D. Pedro II sábio e barbudo em seu trono, ignorando as contradições históricas: a escravidão mantida até 1888, mesmo com a luta pelo seu fim, as desigualdades profundas, pelo poderio do café, a falta de participação popular, como por exemplo a existência do voto censitário. Nosso saudosismo muitas vezes ofendeu a memória de quem sofreu sob o regime que defendemos.
O monarquismo brasileiro sempre foi confundido com um clube de aristocratas saudosistas. Frequentamos salões, usamos títulos de nobreza e nos vestimos como personagens de época, mas falhamos miseravelmente em dialogar com o povo. Enquanto isso, o brasileiro comum nem sabe o que defendemos, mas, quando descobre, nos vê como caricaturas irrelevantes.
Seriam grandes pecados? Nunca apresentamos um modelo viável de monarquia para o século XXI? O que queremos? Monarquia absolutista? Constitucional? Parlamentarista? Como seria a sucessão? Qual o papel do Imperador numa democracia? Nossa falta de clareza alimenta o descrédito? O povo precisa saber: o que muda no bolso, na saúde, na segurança com um monarca?
Gastamos mais tempo lamentando 1889 do que propondo 2026. Nossas pautas são passadistas? Restaurar símbolos, mudar nomes de ruas, criticar a república? Mas cadê o projeto de futuro? A monarquia não pode ser apenas uma sapatilha de época, ela precisa ser uma alternativa moderna de governança, com foco em estabilidade, continuidade de políticas públicas, moderação política.
Em vez de união, assistimos a rachas infinitos: monarquistas tradicionais vs. neomonarquistas, defensores da Casa de Orleans e Bragança vs. outras linhagens, puristas rituais vs. pragmáticos. Brigamos por miudezas enquanto o inimigo comum, o republicanismo corrompido, se mantém ferozes na destruição de nossa dignidade.
Precisamos abandonar o vitimismo e a arrogância histórica. Reconhecer que o Império teve virtudes, mas também graves pecados. Devemos defender a monarquia não como fuga ao presente, mas como solução para os problemas atuais: representação sem populismo, chefe de Estado estável acima das paixões partidárias, freios e contrapesos mais sólidos.
Ou nos reinventamos como movimento maduro, propositivo e popular, ou continuaremos sendo uma curiosidade pitoresca nos livros de história. O futuro não espera. E o Brasil merece mais do que um simples saudosismo mal resolvido.
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