A Coroa Jamais Cairá do Céu
A COROA JAMAIS CAIRÁ DO CÉU
Artigo de Patrick Kouark
Existe uma armadilha confortável em que muitos monarquistas brasileiros vivem há décadas: a armadilha da contemplação. Estudamos a história do Império, admiramos D. Pedro II, choramos a queda de 1889, a Lei Áurea, a manutenção do território nacional — e depois fechamos o livro, suspiramos, e voltamos à vida enquanto a república segue seu curso sem ser desafiada por nenhum voto, nenhuma candidatura, nenhuma presença real nas urnas.
É preciso dizer com clareza: admirar a monarquia sem fazer política é colecionar sonhos.
Antes do chamado à ação, é justo explicar por quê — porque o monarquismo brasileiro não é nostalgia de almanaque, nem elitismo disfarçado de história, nem saudade de um passado idealizado. É, quando pensado com seriedade, uma proposta de arquitetura institucional diferente da que temos.
A monarquia constitucional — como existe hoje no Reino Unido, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, nos Países Baixos, na Espanha, no Japão — oferece algo que a república presidencialista brasileira demonstrou, em 137 anos, ser incapaz de construir de forma estável: a separação entre a chefia de Estado e a disputa política partidária.
O monarca reina, não governa. Está acima das facções. É o símbolo permanente da nação enquanto os governos sobem e caem. Isso não elimina os problemas de um país — nenhuma forma de governo faz isso — mas retira da figura máxima do Estado o veneno da polarização, da reeleição, do cálculo eleitoral permanente. Um presidente que disputa votos nunca pode ser, ao mesmo tempo, o símbolo de todos. Um rei constitucional pode.
No Brasil de hoje, onde a figura presidencial divide o país ao meio a cada ciclo eleitoral, onde a instabilidade institucional é crônica e onde o debate político se tornou guerra de trincheiras sem armistício, essa reflexão merece ser feita sem vergonha e sem complexo de inferioridade.
O monarquismo que serve ao Brasil é o monarquismo democrático, constitucional e inclusivo. Não é restauração por decreto. Não é golpe. Não é saudade de privilégios de nobreza ou de uma sociedade hierárquica estática.
É, ao contrário, a proposta de que o Brasil realize um plebiscito livre e informado — como já aconteceu em 1993, quando a monarquia obteve 13% dos votos numa campanha com recursos miseráveis e visibilidade nenhuma — e que dessa vez a população seja apresentada a argumentos sérios, comparações internacionais reais e uma visão de futuro, não apenas de passado.
O monarquista que xinga republicanos, que trata o debate como guerra cultural, que confunde amor ao Império com ódio à democracia, faz um desserviço à causa. A monarquia constitucional é democrática por natureza. Defendê-la com métodos antidemocráticos é uma contradição que o adversário vai explorar com razão.
Este é ano eleitoral. E aqui a reflexão precisa abandonar a elegância acadêmica e falar diretamente: se os monarquistas brasileiros não entrarem na política eleitoral com seriedade em 2026, a monarquia não virá. Nunca.
Não virá por artigos bem escritos. Não virá por debates no YouTube. Não virá por reconstituições históricas nas redes sociais, por mais corretas e necessárias que sejam. Virá — se vier — pelo único caminho que as democracias reconhecem: representação, votos, mandatos, presença nas casas legislativas.
O que isso significa na prática? Significa conhecer os candidatos que defendem o plebiscito monarquista, e seus possíveis sucessores e apoiá-los ativamente — com voto, com divulgação, com trabalho voluntário de campanha.
Significa votar estrategicamente para câmaras municipais e assembleias estaduais, porque é ali, na base da pirâmide legislativa, que se constrói a credibilidade política de um movimento ao longo do tempo.
Significa não desperdiçar o voto em candidatos simbólicos sem chances, mas tampouco capitular ao "voto útil" que perpetua o duopólio que nos trouxe até aqui.
Significa, para quem tem perfil, considerar ser o candidato — porque o Brasil precisa de monarquistas nas câmaras municipais, nas assembleias, no Congresso. Pessoas que falem de institucionalidade, de história, de reforma política, de modelos comparados — sem gritar, sem polarizar, com a seriedade que o tema merece.
Em 1889, a monarquia não caiu porque o povo a rejeitou. Caiu porque os que a amavam não a defenderam quando foi necessário. D. Pedro II, com a nobreza de caráter que o definia, recusou-se a derramar sangue para manter o trono. Foi um gesto de grandeza pessoal — e de consequências históricas devastadoras para os milhões que viriam depois.
Não podemos repetir a omissão. Não com sangue — nunca com isso — mas com presença. Com organização. Com a coragem de dizer em público, em ano eleitoral, numa urna real: eu acredito que o Brasil pode ser melhor, e vou trabalhar para que essa ideia tenha voz onde as decisões são tomadas.
A coroa não cai do céu. Ela se constrói, tijolo por tijolo, voto por voto, mandato por mandato, com a paciência de quem sabe que está plantando para colheitas que talvez não veja — mas que os filhos deste país merecem ver. O 13 de maio nos lembra que gestos corajosos mudam a história. O outubro de 2026 nos lembra que a história também se faz nas urnas. Sejamos dignos de ambos!
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