O Ativismo Monárquico no Brasil (2015 -2025): Uma Crônica de Ideias Em Tempo de Ruído
O ATIVISMO MONÁRQUICO NO BRASIL (2015–2025): UMA CRÔNICA DE IDEIAS EM TEMPO DE RUÍDO
Família Imperial brasileira 1863, Por Joaquim José Insley Pacheco. Da esquerda para a direita: Princesa D. Leopoldina, o Dom Pedro II, a Imperatriz D. Teresa Cristina e a Princesa Isabel.Entre 2015 e 2025, acompanhei o ativismo monárquico brasileiro como quem observa uma nave antiga atravessar um mar novo: velas de heráldica desfraldadas sob ventos de algoritmo, bússolas do século XIX tentando orientar-se em correntes digitais. Não foi um percurso linear, tampouco grandioso; foi, antes, persistente — e nisso reside sua singularidade.
O monarquismo no Brasil jamais foi um movimento de massas. Desde a queda do Império, sobrevive como tradição residual, memória institucional que se recusa a desaparecer por completo. Ao longo do século XX, manteve-se como nota de rodapé da história política; no início do XXI, reapareceu não como força de ruptura, mas como sintoma. Sintoma de um país que, em crise, volta os olhos para aquilo que lhe prometeu continuidade.
A década que se inicia em 2015 oferece o cenário ideal para esse retorno simbólico. O Brasil entra em convulsão institucional, atravessa impeachment, polarização, colapso de confiança nas estruturas republicanas e um prolongado desgaste do imaginário democrático. É nesse ambiente (saturado de slogans, ressentimentos e urgências) que o ativismo monárquico deixa o silêncio e ocupa as margens visíveis do debate público.
O que muda, então, não é o tamanho do movimento, mas sua forma. A monarquia, antes evocada como nostalgia ou curiosidade histórica, passa a ser apresentada como hipótese institucional, ainda minoritária, mas discursivamente organizada. A entrada de membros da Família Imperial na vida pública, sobretudo na esfera política e editorial, confere ao movimento um novo tipo de legitimidade simbólica: menos cerimonial, mais programática. A figura do príncipe deixa de ser apenas memória genealógica e torna-se ator intelectual.
Nesse período, multiplicam-se associações, diretórios, círculos culturais e plataformas digitais que buscam organizar o discurso monárquico. Não se trata apenas de saudosismo; há tentativas claras de institucionalização civil: estatutos, eventos, publicações, propostas. O ativismo aprende a falar a linguagem do século XXI sem abandonar o vocabulário do passado. Genealogia transforma-se em capital simbólico; história, em argumento; tradição, em método.
Entretanto, o movimento não se apresenta como bloco homogêneo. Ao contrário, a década revela suas fissuras internas. Há os que compreendem a monarquia como rito e estética — a liturgia da memória, a reverência à dinastia, o culto da continuidade. Outros, porém, buscam traduzi-la em arquitetura constitucional: parlamento, responsabilidade de governo, limites do poder, comparação com modelos europeus contemporâneos. Essa tensão entre o simbólico e o programático atravessa todo o período e define seus avanços e seus impasses.
O ativismo monárquico também não atravessa a década imune às contaminações do ambiente político. Em alguns momentos, aproxima-se de correntes conservadoras mais amplas; em outros, esforça-se por se distinguir delas, reivindicando uma posição própria: menos reativa, mais estrutural. Esse movimento pendular revela tanto sua fragilidade quanto sua busca por identidade.
Do ponto de vista institucional, os resultados são modestos. Não houve reformas, plebiscitos ou deslocamentos reais do centro decisório. Mas medir o monarquismo apenas por sua eficácia política imediata seria erro de análise. Seu impacto mais consistente foi cultural e intelectual: a reintrodução da ideia de continuidade histórica no debate público, a crítica ao presentismo republicano, a revalorização do Estado como construção de longa duração.
Entre 2015 e 2025, livros foram escritos, manifestos circularam, debates foram reacendidos. A monarquia voltou a ser discutida não como anedota, mas como problema teórico: qual a forma do Estado? Como se constrói legitimidade? O que sustenta uma nação além da alternância eleitoral? Essas perguntas, ainda que não tenham resposta consensual, passaram a ser feitas com maior frequência.
Há, nesse percurso, um paradoxo revelador. A monarquia brasileira, “formalmente extinta” em 1889, ganha visibilidade justamente quando a República atravessa sua mais profunda crise de confiança. Não porque o passado ofereça soluções prontas, mas porque, em tempos de desordem, a ideia de continuidade exerce fascínio. O monarquismo não promete apenas um regime; promete tempo: algo escasso numa política feita de urgências.
Se este movimento foi um jardineiro ao longo da última década, não plantou instituições prontas, mas preparou o solo. Regou ideias, organizou arquivos, escreveu textos, construiu pequenas praças de discurso. Seu desafio, daqui em diante, é transformar afeto histórico em projeto plausível, memória em método, símbolo em estrutura.
O ativismo monárquico entre 2015 e 2025 não foi revolução, tampouco resíduo inerte. Foi um trabalho lento de sedimentação intelectual: discreto, minoritário, mas persistente. E, em política, persistência é muitas vezes a forma mais silenciosa de ambição.
Por: Carlos Egert, Presidente do Diretório Monárquico do Brasil, Jurista, Cientista Político e Internacionalista.

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