Dois protetores da liberdade: Dom Pedro II e Abraham Lincoln - Vitória Imperial

Dois protetores da liberdade: Dom Pedro II e Abraham Lincoln

 DOIS PROTETORES DA LIBERDADE: 

DOM PEDRO II E ABRAHAM LINCOLN


No cenário convulsivo do século XIX, dois nomes se erguem em hemisférios distintos como guardiões de uma ideia maior que suas pátrias: a liberdade. De um lado, Abraham Lincoln, presidente da União norte-americana, conduzindo seu povo em meio à guerra civil e proclamando a emancipação dos escravizados. Do outro, Dom Pedro II, imperador do Brasil, cuja visão iluminada e erudita conduziu o Império rumo à abolição gradual e inevitável. Embora não se tenham encontrado pessoalmente, suas trajetórias se cruzam nos símbolos e nos ecos de um século que exigia coragem moral.

Dom Pedro II, educado nas letras e na filosofia, via a escravidão como mancha que precisava ser lavada da consciência nacional. Em 1850, apoiou a extinção do tráfico negreiro, ainda jovem e disposto a abdicar se a medida não fosse adotada. Em 1867, diante do Parlamento, proclamou que o tempo da escravidão chegava ao fim, lançando as bases para a Lei do Ventre Livre em 1871. Lincoln, por sua vez, na alvorada de 1863, assinou a Proclamação da Emancipação, iniciando a libertação dos cativos do Sul rebelde e selando sua condição de mártir da causa da liberdade com sua morte em 1865.

Ainda que distantes nos oceanos e nos regimes de governo, ambos foram percebidos como espíritos afins. Há registros de que Lincoln, instado a considerar uma mediação internacional, teria dito que, se houvesse um soberano capaz de interceder em nome da conciliação, esse seria Dom Pedro II do Brasil. Não era um elogio protocolar, mas um reconhecimento da estatura moral de um monarca que, em pleno hemisfério sul, se fizera respeitar como patrono da ciência, da cultura e do progresso.

Quando, em 1876, D. Pedro II visitou os Estados Unidos para o centenário da independência, o gesto ressoou como uma confirmação desse elo simbólico. Foi o único chefe de Estado estrangeiro presente, não apenas como soberano curioso, mas como testemunha do vigor de uma república que Lincoln havia salvo com a própria vida. Em sua jornada, o imperador deixou claro que via no “exemplo americano” a força de um povo capaz de se renovar, assim como ele mesmo desejava renovar o Brasil.

Lincoln e D. Pedro II pertencem a ordens distintas de governo, mas partilham de uma mesma altura moral. Um, republicano eleito pelo povo, outro, monarca herdeiro da tradição; ambos, porém, elevaram-se acima das conveniências para escrever no mármore da história o testemunho de que a dignidade humana é o único fundamento legítimo do poder. A liberdade não é monopólio da república nem da monarquia, mas a herança eterna dos povos que ousam defendê-la.


Carlos Egert
Presidente do Diretório Monárquico do Brasil
Colunista do Vitória Imperial

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