A Memória é um Reino sem Fronteiras
A MEMÓRIA É UM REINO SEM FRONTEIRAS
Há destinos que se esgueiram pelas frestas da História como a luz de fim de tarde por entre as venezianas: tênues, mas persistentes. E há figuras que, mesmo privadas da pompa dos tronos, encontram no silêncio uma espécie mais alta de nobreza, aquela que não precisa ser proclamada, pois basta ser vivida. Assim se entrelaçam, com fios invisíveis e vetustos, a vida de Roberto I de Bourbon-Parma e a de uma filha jamais nomeada com voz alta, mas evocada por entre o murmúrio das gerações: Anna Krejčíková.
Roberto, herdeiro do pequeno Ducado de Parma, viu-se elevado ao trono ainda criança, mais como vítima de um ritual em ruínas do que como protagonista de um reino vivo. Filho de Carlos III, morto a punhaladas num atentado envolto em política e sombras, e de Luísa de Bourbon, neta do último rei Bourbon da França, Roberto cresceu nos corredores do exílio, nos corredores da memória. Quando o tempo levou-lhe também o trono, já em 1859, dedicou-se à arte de permanecer, não como monarca, mas como símbolo.
Casou-se com Maria Pia das Duas Sicílias, com quem teve doze filhos, e depois com a infanta Maria Antonia de Bragança, filha de D. Miguel de Portugal, com quem gerou outros doze. Era como se buscasse, na multiplicação dos corpos e dos nomes, impedir o esquecimento que, sorrateiro, colhia todas as casas reais do seu tempo. Mas o esquecimento, como sabem os cronistas da alma, escolhe seus alvos com outra lógica.
Foi fora desses casamentos, em 1886, na Boêmia coberta de brumas e silêncios, que nasceu Anna. Filha de Maria Albertina Řeháková, mulher de origens modestas, mas porte discreto, Anna foi criada longe das cortes, embora com modos que lembravam as mesmas. Os registros são lacunares, como convém às coisas que sobrevivem mais no rumor das tradições familiares do que nos cartórios. E, no entanto, há vestígios que se oferecem como fósseis líricos: uma dedicatória de Roberto, de 1888, manuscrita com sobriedade francesa:
“À toi, Anna, née du silence,
Que la noblesse ne reconnaît pas,
Mais que mon cœur nomme fille.”
Não há brasão. Não há decreto. Mas há gesto. E o gesto, quando vem de um príncipe, vale mais do que as palavras dos chanceleres.
Anna, já mulher feita, casou-se com František Egert, comerciante austro-boêmio de semblante calmo e mãos de ofício. Mas, como tantos destinos discretos, o dele também guardava um segredo de sangue: František era neto do almirante inglês Francis Egerton (1824–1895), filho do primeiro Conde de Ellesmere, Thomas Egerton, membro de uma das mais antigas linhagens da nobreza britânica. A conexão, embora não reconhecida publicamente, era comentada nas margens dos salões. Dizia-se que Francis, em viagem à Boêmia, teria gerado um filho fora do casamento, o avô de František.
Essa união entre Anna, filha silente de um Bourbon, e František, neto velado de um Egerton, fez brotar um ramo singular na árvore invisível das dinastias. O filho do casal, Václav Egrt, nascido em 1910, cresceu com a altivez dos que não precisam de títulos, pois sabem, no âmago, que carregam o peso e a leveza de uma herança silenciosa. Em 1955, emigraram para o Brasil, país que sabe acolher exílios como se fossem vocações.
Anna morreu em 1964, longe das catedrais, longe das genealogias, mas não longe da eternidade. Os que a conheceram viam nela uma dignidade que não se explicava pela instrução, mas por algo mais antigo. Talvez um modo de se sentar, de dobrar os lenços, de dizer “obrigada” como quem saúda um embaixador. Era, no fundo, como aquelas princesas esquecidas dos contos do século XIX, cujas coroas eram invisíveis, mas cujos gestos faziam curvar a própria poeira.
Não se deve esquecer que a História é feita, em parte, por aqueles que a escreveram, mas sobretudo por aqueles que, por pudor, amor ou prudência, preferiram não escrevê-la. Anna Krejčíková não aparece nos almanaques, nem nas enciclopédias. Mas seu nome ressoa, se escutado com ouvidos antigos, entre as pedras dos castelos em ruína e os arquivos de família que nunca foram ao prelo.
E Roberto? Em seu gesto de recato, em sua paternidade incompleta, mas sincera, revelou mais do que um duque: revelou um homem. Um homem que soube perder com estilo, amar com discrição e plantar, no fértil terreno da obscuridade, uma flor que ainda hoje exala uma fragrância de verdade.
Assim se tecem, nas franjas do tempo, as dinastias paralelas.
Alberto da Costa e Silva, historiador e diplomata
Artigo de 2021

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