UM PAÍS QUE NÃO SE ACHOU
O Brasil já foi três vezes a mesma pergunta com respostas diferentes: onde está o centro disto tudo? Onde bate o coração de um território que não cabe em nenhum mapa pequeno? A resposta mudou três vezes. E cada mudança diz algo sobre o Brasil que existia então, e sobre o que ainda não conseguimos ser.
Quando Tomé de Sousa desembarcou na Bahia em 1549, trazia consigo uma cidade pré-fabricada nos planos de Lisboa: Salvador nasceu capital antes de nascer cidade. Era uma decisão de gabinete português traduzida em pedra e cal no alto de uma falésia que dominava a Baía de Todos os Santos.
Por 214 anos, Salvador foi o Brasil. Tudo que existia de poder, de comércio, de fé organizada e de vida pública colonial passava por ali. Era uma cidade do açúcar e da cruz, os jesuítas, as igrejas barrocas, as grandes famílias de senhores de engenho, os mercados de escravos que envergonham a memória e que nenhuma historiografia honesta pode apagar. Era também uma cidade vibrante, miscigenada desde o princípio, onde culturas africanas e portuguesas começaram a produzir aquela síntese que ainda hoje é a alma profunda do Brasil.
Salvador foi a capital de um Brasil que olhava para o mar, para Portugal, para a África, para o açúcar que cruzava o Atlântico. Era uma capital colonial no sentido mais literal: existia para servir ao reino, não para construir uma nação.
O ouro de Minas Gerais não pediu licença. Surgiu nas entranhas do sertão no fim do século XVII e virou o mundo colonial de cabeça para baixo em questão de décadas. De repente, o eixo econômico do Brasil havia se deslocado para o centro-sul, e Salvador, distante, voltada para o norte, separada das Minas por centenas de léguas de caminhos difíceis, começou a soar como um equívoco geográfico.
Em 31 de agosto de 1763, o Marquês de Pombal assinou a inevitabilidade: a capital migrou para o Rio de Janeiro. Não foi uma escolha sentimental. Foi uma decisão de logística imperial, o Rio era o porto do ouro, a garganta por onde passava a riqueza que sustentava Lisboa. Fazer a administração seguir a riqueza era simplesmente racional.
O Rio de Janeiro viveria então a mais extraordinária sequência de transformações que uma cidade brasileira já experimentou num intervalo tão curto: capital colonial em 1763, sede do Império português em 1808 quando D. João VI atravessou o Atlântico fugindo de Napoleão, capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1815, capital do Império do Brasil independente em 1822, capital da república golpista em 1889. Por quase dois séculos, o Rio acumulou camadas de história como nenhuma outra cidade brasileira, a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, a Academia Imperial de Belas Artes, os palácios, as avenidas, a Escola de Samba que nasceu do samba que nasceu do candomblé que nasceu da África que chegou encorrentada e ficou livre para criar.
O Rio era uma capital que o tempo havia escolhido, não por decreto, mas por gravidade. As coisas importantes convergiam para lá porque o Brasil convergiu para lá durante gerações. Era a cidade onde o país se reconhecia.
E então veio Juscelino Kubitschek, e veio Oscar Niemeyer, e veio Lúcio Costa, e veio a mais audaciosa, e mais discutível, decisão urbanística da história republicana brasileira: arrancar a capital do lugar onde ela havia florescido organicamente e transplantá-la para o cerrado vazio do Planalto Central, a 1.200 quilômetros do mar, sem história, sem povo estabelecido, sem nada além de uma ideia e de uma quantidade absurda de concreto armado.
A justificativa era desenvolver o interior, integrar o território, projetar o Brasil para o futuro com a audácia de quem acredita que uma nação pode ser reinventada pela arquitetura. Havia grandeza nessa visão. Havia também uma arrogância caracteristicamente republicana, a crença de que se pode construir identidade por decreto, que basta mudar o endereço do poder para mudar a alma do país.
Brasília foi inaugurada em 1960. Sessenta e seis anos depois, é uma cidade-função: existe para abrigar o Estado, e o Estado existe para justificar a cidade. É bela, ninguém de boa-fé nega o gênio de Niemeyer nem a elegância do plano piloto. Mas é uma beleza sem raízes, um palco sem dramaturgia própria, uma capital que o Brasil ainda não aprendeu a amar como amava o Rio, como a Bahia ainda ama Salvador.
E há um detalhe que a história republicana prefere não iluminar: a Constituição de 1946 já previa a transferência da capital para o interior. O artigo era letra morta há mais de uma década quando JK o ressuscitou. O que fez Brasília possível não foi a vontade do povo, foi a velocidade de um presidente que sabia que se não construísse rápido, não construiria nunca. "Cinquenta anos em cinco" não era um slogan de eficiência. Era uma confissão de que o projeto não sobreviveria ao debate democrático lento.
Salvador era o Brasil que servia ao exterior, colônia, açúcar, escravidão, olhos voltados para o Atlântico e para Lisboa.
Rio de Janeiro era o Brasil que tentava ser ele mesmo, sede de um Império que produziu as maiores realizações institucionais da nossa história, cidade onde a nação começou a se reconhecer no espelho.
Brasília é o Brasil que ainda não sabe bem o que quer ser, grandioso no plano, disfuncional na prática, distante do povo que deveria servir, habitado por uma classe política que construiu para si mesma uma cidade-bolha separada da realidade por 1.200 quilômetros em qualquer direção.
Não é acidente que o Rio de Janeiro tenha sido a capital nos únicos períodos em que o Brasil teve continuidade institucional prolongada: o Império, com seus sessenta e sete anos de estabilidade notável para um país das nossas dimensões e contradições. E não é acidente que desde que a capital partiu para o cerrado, o Brasil tenha vivido ditadura, redemocratização, hiperinflação, dois impeachments, uma pandemia e uma polarização que divide o país ao meio sem que nenhuma instância consiga ser árbitro de nada. A cidade não explica tudo. Mas explica mais do que se admite.
Salvador escolheu um Brasil de fé e de mar.
O Rio herdou um Brasil de corte e de povo.
Brasília projetou um Brasil que ainda está por vir.
Duzentos e sessenta e três anos depois de Pombal mover o centro do país para o sul, ainda estamos procurando onde bate o coração desse território imenso.
Talvez ele nunca tenha saído do Rio.
Talvez ainda esteja, teimoso e barroco, nas ladeiras de Salvador.
Ou talvez o Brasil seja grande demais para ter um só coração, e a insistência em escolher um único centro seja, ela mesma, o equívoco mais antigo que carregamos.
Patrick Kouark
Exclusivo Vitória Imperial
Nenhum comentário